O Alto Alentejo, que irrigou de suor a ceara imensa, derrama hoje lágrimas de saudade, no oliveiral manso que brota a céu aberto, sem, charrua, sem focinha, sem debulhadora, sem capataz, sem latifundiário e sem alentejanos, que cantavam a falar para as gentes com transmutação eléctrica…
Quem percorre a auto-estrada nr 2 ou por saudade transita no IC1 que liga o Algarve ao Norte, tentando encontrar “paisagem ou alentejanos genuínos”, fica desalentado com as mudanças, que a revolução sancionou e os “autarcas” perpetraram de consciência tranquila – o que era velho, deitaram abaixo, os sabores perderam-se na intriga com a mistura de que tudo vale e os costumes, por “antigos” tomaram outras formas com cintos arreados, saltos de partir costas e cuecas a saltar duma saia preguiçosamente engelhada e onde pontua com descaramento um elástico desfiado e foleiro – o sotaque quase desapareceu, a cavaqueira apagou-se e os ventos que sopram apesar de tudo ainda quentes, deixam uma réstia de esperança soturna, que pode descaracterizar e modificar uma região, que como a do Porto, deveriam ser consideradas por direito próprio em “ Património da Humanidade”.
Cunhal que deambulou por estes lados com objectivos políticos, e onde Zeca Afonso com criatividade impar, desenterrou o hino da fraternidade após a “revolução”, dourando a liberdade, nada puderam fazer para estancar uma sina de igualdade social que “mata a raíz ao pensamento”, fazendo enegrecer a identidade das regiões com vitalidade natural – infelizmente e colocando em primeiro lugar uma ansiedade genética, “os ventos de mudança”, empurraram com estúpida oportunidade os povos para outros saberes, outras linguagens e outras roupagens que por desajustadas na essência, fazem nascer o carnaval do travestido, que faz rir, mas envergonha quem se “sente”…




