domingo, 25 de agosto de 2013

Batalhão 774, Companhia 771 - (8) ANGOLA

Esta piscina (um oásis no meio do nada) atraía os colonos que viviam em Matadi e aos sábados não havia lugar vago…Matadi confinava com Nóqui e a novidade do contrabando era diária – o pau rosa, o marfim e o pau preto fizeram as delícias da tropa que nunca tinham visto nada daquilo…sabia-se que os guerrilheiros estavam sedeados em Matadi e era dessa cidade que partiam os contingentes para as emboscadas…com as operações na mata, a Companhia tentava controlar o fluxo de combatentes, mas era uma tarefa muito complexa que era como diz o povo, achar uma “ agulha no palheiro”…os combatentes e com a experiência do teatro de guerra, vendo-se ou encontrando-se a agulha, não se lhe mexia, para evitar confrontos vingativos no curto prazo...

Um dia a PIDE deu-me um salvo conduto para me deslocar a Matadi e o Ribeiro que tinha um Bar no lado contrário ao do bar do Jardim, ofereceu-me a carrinha e lá fui ...
Matadi, depois da revolução, era uma cidade Belga completamente arruinada - o "Metropole" um hotel de luxo ainda tinha vestígios do poder colonial Belga - a entrada iniciada por uma escada em caracol debruada a  alabastro, tinha um aspeto majestoso e os candeeiros com "abajour" a marfim davam um pequeno indício do que teria sido antes da revolução...desloquei-me por curiosidade a um café para beber uma cerveja e quando lá entrei, não retrocedi imediatamente, porque tive medo... os pretos eram dezenas e os olhares colocaram-me em destaque - um deles abeirou-se e num "fioco afrancesado" que percebi, convidava-me para um encontro no mato com alguém com poder - estive à beira de desertar com medo da retaliação que viesse a seguir...com um "au revoir, et je vais penser" avancei para a carrinha e só parei na fronteira para falar com o PIDE que sem querer saber de nada, me disso:- nunca mais voltes a fazer isto, se queres chegar ao " Puto" são e salvo...o erro, ensinou-me que não se pode ser estúpido na guerra e daí para a frente nunca mais sai do aconchego da Companhia 771...



Fuzileiros no Rio Zaire à espreita...fotos gentilmente cedidas pelo BART. nr.1922, Companhia 1725

1 e 2 - As escadas do  Palácio do Governador( abandonado); 2 - Cunha ( falecido); 3 - um Ribatejano; 4 - Gonçalves; 5 -  Oliveira; 6 - AR.
A equipa do reabastecimento e um pequeno acidente; uma visita de trabalho Nóqui e a extraordinária via marítima que era o rio Zaire ou Congo.

Sanzala no Congo, quase na fronteira com Angola - daqui vinham muitos guerrilheiros desta povoação para combater os "Tugas"...


No Cabeço do Tope, ponte que passava por cima do rio Lué, onde abastecíamos de água para as lides da cozinha e da higiene...seguindo a picada  (única) alcançávamos M`Pala...




continua nr. 9

Batalhão 774, Companhia 771 - (7) ANGOLA

Alguém se lembrou de escavar um altar num embondeiro, colocando lá uma divindade - a Sra. de Fátima também tinha chegado a Angola e por razões que desconheço esta imagem ajudou a enfrentar o desconhecido...

No movimento para norte a estrada de alcatrão foi desaparecendo aos poucos até que acabou mesmo e se passou a rolar na terra batida...a tal célebre picada… percebeu-se que aquilo era a tal picada de que todos falavam e as ervas altas e prontas a esconder o inimigo eram o famoso capim - todos ficamos de pé atrás com a picada e o capim – num ápice o horizonte escondia-se no capim e os morros circundantes tapavam o sol e isso era uma razão para que os receios aparecessem, visto que todos estávamos tensos e qualquer alteração no percurso provocava reações - qualquer alteração produzida na coluna e no horizonte que tapava o raio de ação da visão, era mal visto e a tropa "maçarica" sem o saber ia-se ajustando aos acidentes do terreno africano – era evidente a preocupação com que todos espreitávamos para a mata esperando a todo o tempo uma reação que felizmente não aconteceu – ficamos todos mais descontraídos quando fomos sobrevoados por dois aviões Fiat que rasaram a coluna, dando-nos sinal evidente que a picada estava controlada com os nossos " amigos" a vigiar do ar – a partir de uma determinada altura não se via viva alma e as populações como que por mágica tinham desaparecido – percebemos que estávamos num local de "ninguém" e o inimigo, que nunca tínhamos visto, podia estar emboscado em qualquer lado da picada…
As emboscadas e as tão estudadas “zonas de morte” em Tavira e logo que apareceram as primeiras curvas por causa das elevações do terreno e se deu conta de enormes buracos no centro da picada e que obrigavam a desvio, fizeram perceber a razão das viaturas nunca perderem de vista a anterior, mas mantendo sempre uma distância muito razoável e uma velocidade a rondar os 80/90 km/hora, o que era determinada pela primeira viatura - esta, era a melhor viatura, se nãoo apanhasse uma mina, porque tinha a totalidade da picada no ângulo de visão e não apanhava o famigerado pó, que escondia o percurso causando problemas gravíssimos à marcha da coluna, que apesar dos óculos e dos lenços a tapar a boca e o nariz não evitavam que o cuspo saísse da boca como se fosse uma bola de terra preta – no entanto, tinha um grande senão, pois era a viatura tampão no caso de haver ataque, obrigando a coluna a parar – estas berliet por vezes não transportavam nada de utilidade, eram reforçadas para proteger o condutor e poder suster o impacto das minas enterradas nas áreas onde os rodados passavam e que estavam bem marcados na picada – os unimogues com o pessoal com as armas em riste ou pousadas nos joelhos e que estavam distribuídos estrategicamente davam sempre um ar de segurança à coluna e sentia-se que  ao menor sinal de perigo estavam prontos a ripostar – estes elementos sabendo do perigo que corriam por estarem demasiado expostos, sofriam bastante e a maior parte das vezes tinham perturbações psicológicas a que se chamava de “cacimbado” (orvalhada que acontece em África) e o único remédio existente era a boa cerveja que existia em Angola, a célebre Cuca ou a Nocal – apesar de todos os contratempos, o pior mesmo era a tensão psicológica que colocava grande stress sobre os combatentes que sabiam estar ali desprotegidos, com os olhos fixos nas bordas da picada e com o peito feito ás balas, como se fossem “carne para canhão” – quando se vêm políticos a receberem condecorações por “ dá cá aquela palha” ficamos azedos, porque estes homens que, obrigados, enfrentaram uma guerra traiçoeira, colocando em perigo a sua própria vida, quando decidiram cumprir as ordens que lhe deram e não são achados para coisa nenhuma, fazem crer que alguma coisa existe de profundamente errado no pensamento político patrioteiro – os Governos Portugueses, desde o final da guerra das colónias, são enteados dos combatentes e uns “ chicos espertos” miseráveis, quando um deficiente ou um caído em desgraça de guerra, lhes pede qualquer ajuda e ela é simplesmente negada ou mesmo ignorada…a "hipocrisia da defesa do estado" confunde-se com deserções, discursos ideologicamente  bacocos, opiniões bizarras e muita incompetência, por isso talvez o desprezo seja um bom ingrediente para caracterizar os que beneficiam com o sistema, sem alguma vez terem tido o privilégio de estarem numa teatro de guerra...muitos deles fazem gala de terem fugido à responsabilidade patriótica daquilo que na altura se pensava ser o mais certo - defender o legado dos antepassados...

Sabíamos todos que o inimigo espreitava sempre uma oportunidade e as rendições do pessoal veterano, pelos chamados maçaricos ou inexperientes eram na altura eleitos pelo inimigo para alvos escolhidos para provocar verdadeiras desgraças – a preparação obtida em Tavira colocava à prova a capacidade de afrontar sem medo o perigo e isso revelou-se um facto, quando foi preciso estar na primeira linha – esta era uma guerra traiçoeira de disparar e fugir, de boato permanente que percorria em horas centenas de km, ou de emboscada letal, mas a fornada para a grande rendição de Angola estava preparada e até agora estava a demonstrar a sua operacionalidade…todos sabíamos que a estratégia das linhas de defesa que os quartéis portugueses tinham espalhados pelo território Angolano não deixavam grande margem de manobra ao inimigo, mas...os aquartelamentos estavam de tal modo colocados no terreno que era quase impossível ultrapassá-los de ânimo leve e o inimigo sabia disso e também porque os seus meios eram escassos, não tinham força aérea, não tinham meios para se deslocarem e  as armas eram reduzidas…tudo estava a dar certo se não tivesse acontecido o apoio incondicional dos Nórdicos, dos Americanos, dos Chineses e dos Russos e de muitos outros, que hoje são também colonizadores... " Salazar, apesar de tudo, sabia que esta guerra só poderia ser perdida em Lisboa” e tinha razão… no teatro de guerra percebemos isso e cedo percebemos que as prioridades era cumprir as ordens e salvaguardar a nossa própria vida…

Finalmente a primeira etapa na campanha africana – Luanda, Cabeço do Tope, na zona de fronteira com o ex.Congo Bela...


Angola e para além duma savana imensa, também tinha montanhas alcantiladas e que recortavam a paisagem - existia  a famosa Pedra Verde e esta montanha na passagem, "cheirava" a muito mineral valioso - os diamantes, o petróleo e outros serão o "cofre" que Portugal deixou intactos, ao contrario de outros que sugaram e ainda sugam com voracidade incontrolada tudo o que podem roubar, enquanto potências do Know How...

Depois duma incursão séria nos domínios da mata e duma experiência vivida que nos ajudou a decifrar o terreno que pisávamos, chegamos finalmente ao Norte no mato à célebre ZIN ( Zona de Intervenção Norte) - o nosso estacionamento no teatro de guerra – o rio Zaire ou Congo, uma via para a economia Congolesa e um dos rios mais caudalosos do mundo e que delimita as fronteiras no Norte de Angola deu-nos as boas vindas nos reabastecimentos a Nóqui – hoje ainda são aquelas as fronteiras que os exploradores portugueses determinaram para Angola e esse facto inolvidável, terá um dia, apesar de tudo, de ser reconhecido pelos Angolanos…

Depois de terem sido calcorreados centenas de km e terem acontecido os primeiros percalços, quer com avarias, quer com atravessamento de pontes de toros de madeira a Companhia 771 alcançou o destino e qual não foi o espanto quando vimos no primeiro reabastecimento a Nóqui, uma piscina e no verso um morro altíssimo que tinha no topo um canhão sem recuo que metia respeito, apontado ao porto de Matadi – sendo tudo uma novidade, subimos a pique o morro sobranceiro à cidade, estando a localização do quartel em Nóqui num local estratégico impenetrável por terra, apenas vulnerável pelo ar – depois do sucesso da viagem, que não teve qualquer percalço de monta, todos deparamos pela primeira vez com uma paisagem avassaladora, o rio Zaire ou Congo, que, imponente mostrava a sua força e grandeza e um quartel que estava localizado em local estratégico para impedir a travessia da fronteira do Congo pelo inimigo, apoiado em dinheiro pelos Americanos e  que se acoitava perto da fronteira com Angola... um dia os Americanos , que tão descaradamente apoiaram a guerrilha no mais tosco da sua existência, deveriam ter também o mundo contra eles, visto que também o terreno que pisam nunca foi deles...no entanto reconhecemos que, também os Americanos,  andam perdidos e por vezes não acertam com a solução, para o que julgam ser um problema à soberania...




continua nr. 8





Batalhao 774, Companhia 771 - (6) ANGOLA


Quando chegamos ao porto de Luanda, percebemos finalmente que Angola não era uma terra atrasada e entendemos a razão da guerra - tanta beleza só podia gerar inveja...




A Baía de Luanda, a Ilha do Mussulo, à noite era uma coisa do outro mundo...





O Porto de Luanda em 1965 em Angola era moderno e a Baía de dia era também um sonho... 


Chegada e partida do Grafanil…um entreposto militar...


No Grafanil, dormimos ao relento em burros de campanha durante mais ou menos uma semana e éramos alimentados por marmitas que íamos buscar aos fogões de campanha - todos desejávamos a saída dali, porque para além de não ser um local simpático, a estadia era dura atendendo ás condições higiénicas que eram muito más...a maior parte, passava a noite na conversa, na garotada a fumar e a beber cerveja...nessa altura também fumava...por estas alturas os aerogramas ou papa milhas, que eram gratuitos, voaram para o "puto" aos milhões - por esta altura pareceram as madrinhas de guerra...

Finalmente a hora da partida chegou e o movimento das viaturas “berliet” destinadas a transportar todo o tipo de material, os jipes e os unimogues para os pelotões que tinham na caixa da viatura uma estrutura em madeira que permitia ao soldado estar sempre voltado para a picada de ambos os lados, alinhou-se ao longo da estrada e a coluna lentamente colocou-se em marcha – enquanto a estrada era sofrível no alcatrão, tudo se ultrapassava com normalidade, embora se notasse aqui e ali uma tensão nos olhares que exprimiam um bom sintoma - estavam todos em alerta máxima e isso era o ideal – todos estávamos preocupadíssimos e isso era essencial para se enfrentar o que não conhecíamos – como “cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém” e “ o seguro morreu de velho e o desconfiado ainda hoje é vivo”e embora pudesse ir na cabine, escolhi a caixa duma berliet que ia a meio da coluna que na altura ia atafulhada com todo o tipo de material – foi uma solução que sempre escolhi, porque sempre pensei que, sendo um interveniente pertencente à administração militar e não tendo que fazer parte de qualquer estratégia dos 4 pelotões da Companhia, sabia que a cabine das viaturas era o alvo dos primeiros tiros para obrigar a coluna a parar, iniciando-se dessa forma a tática de colocar na “zona de morte” o maior número possível de viaturas – percorri milhares de km no Norte de Angola na Província do Zaire, porque sendo vagomestre da companhia tinha de fazer centenas de km, algumas vezes, duas vezes por semana para reabastecer de alimentos a Companhia e aos quais nunca me neguei, podendo fazê-lo – outras vezes o inimigo escolhia o jipe com a breda, porque sabia que daí vinha a principal resistência à sobrevivência na emboscada… também os militares instalados nos unimogues e que tinham visão para os dois lados eram alvos a abater, porque estes e reagindo como deveria ser ao primeiro sinal de perigo, saltariam para as bermas e colocariam em cima do inimigo as granadas defensivas que transportavam no cinto e por isso e estrategicamente o inimigo procurava neutralizar os pontos fortes da coluna…como a coluna tinha pontos fracos e mais ou menos fortes, sempre pensei que a penúltima berliet seria o local mais seguro até porque a fechar a coluna ia sempre um uinimogue com vários combatentes prontos a entrar em ação e que podiam ficar fora da “zona de morte” rodear rapidamente o inimigo por detrás, anulando ou diminuindo mesmo, a intensidade do ataque e permitindo reação às tropas, entretanto apanhadas na zona, onde os guerrilheiros inimigos estavam emboscados e à espera duma oportunidade… a palavra “emboscada” causava medo e suores frios e não raramente, colocava o combatente em sentido…eu tinha estudado e ouvido com muita atenção tudo o que dizia respeito a emboscadas e sabia que essa era uma situação a evitar e que, quando acontecesse, teria de haver uma escapatória...

Foi no Grafanil que tomamos conhecimento com os “ papa-léguas” ou aerogramas gratuitos e isso foi uma boa novidade para toda a gente - escrevíamos para todos os lados e arranjamos “madrinhas de guerra” que ajudavam a mitigar o principio da saudade...

continua nr. 7

Batalhão 774, Companhia 771 - (5) ANGOLA

Os portugueses gostam de " armar", mas com esta idade, "embandeirar em arco" era muito normal...

Os veteranos, por vezes e se calhar a brincar ou a mentir, pouco interessava contavam histórias aos "maçaricos" preparando-os para o que aí vinha - diziam, que, quando os cálculos dos cantis falhavam e a água escasseava, qualquer sítio servia para mitigar a sede e o cloro fazia maravilhas apesar de se saber que as águas inquinadas provocavam todo o tipo de doenças – através da água, apanhavam-se todos os tipos de bactérias perigosas que provocavam infeções e lesões físicas que, nalguns casos ainda perduram – como antídoto na idade dos 22 anos o sistema imunitário ajudava muito e que se saiba na companhia ninguém foi “apanhado” com gravidade pelas enfermidades que pululavam por todo o lado…existia um médico e um local para enfermagem na Companhia e fora alguns contratempos os primeiros socorros funcionavam bem – quando não havia outra solução um avião colocava o doente em Luanda rapidamente e senão houvesse capacidade para resolver nos hospitais existentes a TAP solucionava o problema…nessa altura os portugueses combatentes tinham uma retaguarda bem estruturada e bem atenta, embora muitos discutissem as razões e a utilidade da operação da “ Angola é nossa” - ninguém  queria saber disso para nada…as histórias tinham sempre um conteúdo chocante e outro mais cor de rosa, mas que obrigava a pensar lá isso obrigava... havia outros que quando associados a literatura publicada e a testemunhos neste caso reais, visto que alguns veteranos tinham estado no inicio da guerra, faziam crer que muita coisa não nos tinha sido dita na especialização em Tavira...mas a vida é assim, uns mandam e outros obedecem...

Sabíamos e ouvíamos dizer que a UPA chefiada por Holden Roberto, um grupo inexplicavelmente apoiado pelos Americanos,  era um grupo tribalista dos mais perigosos que existiam em Angola e que tinham como palco de acolhimento o Congo que lhes dava guarida - este grupo que atuava de forma demencial, espalhou o terror e quando a guerra eclodiu em 61, massacraram os Bailundos, uma etnia que apoiava os portugueses e assassinaram de forma diabólica, fazendeiros, mulheres e crianças em grande número - completamente drogados e equipados com catanas e canhangulos onde associavam drogas, invadiram as fazendas, violaram mulheres repetidamente, assassinaram crianças na frente dos fazendeiros e depois de os vergastarem com as pernas das crianças cortadas à catanada, atreveram-se a serrá-los vivos  nas instalações da fazenda... tínhamos todos, uns mais do que outros, a sensação de que o exercício da guerra em Angola não seria uma coisa superficial, mas uma coisa mais profunda e que poderia atingir o limite do nunca visto - na altura pensei que talvez não fosse tanto assim - um copo de Vat 69 no bar e uns " parfait d´ámour" diminuíram o impacto do pensamento negativo e o Hipólito, um veterano primeiro sargento e meu chefe administrativo, ajudaram a desanuviar o encadeamento, dizendo que ás vezes nem dobrada desidratada havia para comer no mato...pensei cá com os meus botões, porra,... se isto é verdade, estamos feitos...aliás eu tinha-me informado e tinha o célebre livro do levantamento da UPA em 61 e que o Holden Roberto teve vergonha de assumir quando viu as imagens na América, tal era o desmando do massacre aos colonos e Bailundos - vi as fotografias e sempre que podia dava uma vista de olhos ao livro...eram cenas perfeitamente horríveis e que nenhum de nós tinha noção do que estava verdadeiramente em jogo nesta guerra...sabíamos que os Americanos eram uma vertente do problema, mas apoiar a UPA para chacinas destas, era "muita areia para a nossa camionete"...

continua nr. 6

Batalhão 774, Companhia 771 - (4) ANGOLA

…O Vera Cruz e a “sargentada” das companhias, 771,772 e 773 e 774…

A verdade que todos desconhecíamos em profundidade por falta de experiência era-nos relatada por veteranos que também faziam parte da companhia 771…nas conversas, notamos que havia receios nos mais velhos que contavam coisas de arrepiar...especialmente quando se referiam a 1961 e aos massacres que a UPA, comandada por Hoden Roberto teve a pouca vergonha de executar no Norte de Angola...muitos de nós tínhamos o livro publicado em 1961 dos massacres da UPA e só de pensar que muitos, foram esventrados por serras mecânicas existentes nas fazendas faziam-nos adivinhar que muitas coisas poderiam correr mal...um Vat 69 vinha sempre a calhar e para esquecer, alguns de nós não fazíamos cerimónia...

É bem verdade e em retrospetiva, que no final da campanha e em contraste com abraços efusivos e gritos de alegria, sobressaiam os “caixotes” que eram descarregados sorrateiramente e empilhados ao longo do cais, que traduziam de forma calada que o esposo, o namorado, o filho ou o neto não voltariam mais…no entanto as saudades dos que chegavam eram imensas e a lindíssima Baía, o Musseque de S.Paulo, a Ilha do Mussulo, o Tamar, a Portugália, o Pólo Norte, os machimbombos, os sinaleiros, a cuca, a nocal, sempre presente nas comemorações, o capim, as picadas, os cagaços, os mosquitos, os atolamentos das viaturas provocados pelas chuvadas que lançavam o caos nas colunas que se deslocavam num território imenso, foram acontecimentos únicos e que jamais os soldados portugueses que por lá passaram esquecerão e isso atenua bastante a memória das desgraças que aconteceram mesmo…no final da campanha percebemos aqueles que tiveram a sorte imensa de poder contar a história com conhecimento de causa e hoje poderem com saudade recordar um daqueles momentos que nos marcam para toda a vida...

Por obrigação, todos fomos vacinados contra a febre amarela e todos sabíamos dos perigos, como sejam, os comprimidos de sal, as hepatites, os herpes, a terrível malária, o paludismo que obrigava à tomada de dois comprimidos de quinino todos os santos dias, da mosca do sono, sabíamos dos males da matacanha, da célebre bisnaga anti doença venérea, como se sabia da praga dos mosquitos e alguns deles que inoculavam larvas na derme ou dos perigos da água imprópria para consumo que tinha como única salvação a fervura ou o cloro, já que, não havia em lado nenhum água domiciliaria potável, para além evidentemente de todas as condições higiénicas que faltavam serem propícias ao desenvolvimento de bactérias perigosas, das baratas e dos percevejos que quando atingiam a pele causavam estragos irreparáveis…também sabíamos que o terreno era duro e o inimigo implacável, mas o que tem de ser tem mais força e estava em marcha...muitos de nós "assumiram a defesa da pátria"apesar de saberem que esta guerra era injusta e que mais tarde ou mais cedo, o povo angolano alcançaria a independência...

continua nr. 5

Batalhão 774, Companhia 771 - (3) ANGOLA

Maçaricos, por “mares que nunca antes navegaram”…

Com a medalha em metal pobre pendurada no pescoço, de queixo na amurada, extasiados pelo mar imenso, os dias e as noites eram um espetáculo nunca visto e todos olhávamos para os peixes voadores que “apostavam”, quem chegava mais alto e mais longe e alguns circunspectos na problemática da passagem da linha do equador, que alguns mais experientes afirmavam ser um pequeno “salto” que o Vera Cruz teria de dar, o tempo pouco contava e a piscina, os bares, as bebidas exóticas, os cigarros, o contrabando e os passatempos que estavam sempre a abarrotar de curiosos a quem o dinheiro não faltava, preenchiam todo o tempo de mar aberto – a tropa com a moral em alta era bem tratada e com Angola na mira parecia tudo um sonho, tudo um conto de fadas…os portugueses são um povo excecional, adaptando-se com rapidez aos altos e baixos que a vida oferece e rapidamente “dançam consoante a música” – nesta altura a aventura que se estava a desenrolar diante dos olhos, não fazia adivinhar nada que não fosse possível ultrapassar e de certo modo todos aproveitamos o cruzeiro com satisfação -  não me lembro de ter vislumbrado nenhum tipo de depressão que pudesse agudizar algum sintoma mental grave…quem o tivesse tinha o recato do camarote e aí podia desembaraçar-se facilmente da psicose da guerra que ia travar e mesmo safar-se facilmente dalguma melancolia causada pelo afastamento do quotidiano familiar recorrendo ao bar que estava sempre aberto...

Finalmente terra à vista e Luanda ao longe parecia uma coisa do outro mundo - embora soubesse que a guerra não era em Luanda, sempre pensei que o desenvolvimento urbano não tivesse a envergadura que todos estávamos a admirar...

A chegada a Luanda, com o Vera Cruz a encostar aos cais, foi triunfal e depois do desembarque, a parada onde se ouviram alguns (poucos) gritos de “viva Portugal”, tornou-nos a todos um pouco mais importantes – as cerimónias da chegada apesar do aparato, notava-se por parte das chefias uma certa pressa para abandonar o local e o toque a reunir deu o sinal de partida para o Grafanil, um entreposto militar, que distava, segundo diziam uns 15 km de Luanda…


...a bonita baía e emoldurar Luanda em 1965 e nós, especados nas amuradas e um tanto apanhados de surpresa deliramos com o que estávamos a ver... tinham-nos dito que África era um Continente subdesenvolvido, mas isto era uma cidade melhor do que algumas no Continente...

continua nr. 4

Batalhão 774, Companhia 771 - (2) ANGOLA

Foto de fim de curso no quartel em Tavira ( segundo a contar da direita de quem olha para a foto)...
Soldados rasos, cabos e depois furriéis milicianos...
A disciplina neste quartel era tão rigorosa que havia um alferes de Ílhavo, que, analisando conterrâneos seus, mal notava um botão desapertado, uma bota mal engraxada, um cabelo fora do sítio, ou mesmo nada a assinalar, só para sacanear os conterrâneos, adiava a saída do quartel... este oficial era um um perfeito "piolhoso" e demonstra que muitos deles, oficiais de Academia Militar, faziam tudo para amesquinhar os Milicianos e a inveja era tanta que existe quem diga que o 25 de Abril foi desencadeado simplesmente por desinteligências quanto ao poder dos Milicianos que em campanha eram os " paus mandados para toda a obra"...normalmente os comandantes eram de Academia e os Milicianos alombavam com os pelotões para fazer o trabalho no terreno...

Depois duma formação militar muito exigente, que implicava desde a alvorada, saídas em passo de corrida, caminhar no pórtico, salto do galho, deitar, rodopiar sobre si mesmo e arranjar maneira de fugir sem cair, rastejar até doerem os cotovelos, não esquecendo a bosta (da feira do dia anterior) que estava por todos os lados, até subir e descer montes várias vezes até a boca saber a sangue, passar por debaixo de arame farpado, saltar paliçadas, atravessar rios tendo como guia uma simples corda, mesmo sem saber nadar, da cambalhota em frente, da chapada com resposta pronta, da defesa do castelo, da carpete humana ou da descida em rebolão, tudo fazia parte da  formação básica - o exercício de descer em rebolão os degraus íngremes da escadaria da capela de Santa Luzia, da montagem e desmontagem de armas, até ao fogo real, dos slides da torre das capelas, saltos de viatura em movimento e muito treino de marcha forçada com botas,  para além do fato de macaco, capacete e arma e muita preparação teórica sobre tudo o que dizia respeito a estratégia e especialização nos ramos a que se destinavam em quartéis destinados à formação militar, tudo era permitido para serem alcançados objetivos mentais e físicos necessários para uma campanha perigosa e demolidora que poderia servir na Guiné Bissau, Angola ou Moçambique...Tavira nessa altura levou ao extremo a formação militar básica e resultou, porque hoje todos reconhecem que o que se pedia era capacidade para enfrentar uma "guerrilha" em África que era muito mal conhecida e o objetivo, apesar da derrota, foi alcançado...

Os mancebos e depois de terminada a recruta, cada um “per si” foram incorporados em vários batalhões, sendo justo realçar terem sido incorporados na Companhia 771 sob o comando do Capitão António Marques (falecido), englobada no Batalhão de Caçadores 774 comandado pelo tenente Coronel Milreu ( falecido)...

Depois de fazermos uma breve passagem por Santa Margarida, onde foram realizados muitos exercícios de consolidação de conhecimentos, fomos preparados para a viagem que ninguém sabia qual era - na altura a Guiné Bissau era o local que todos sabiam ser uma colónia com muito má fama...é interessante recordar que em Santa Margarida o capitão da Companhia não era o Marques, mas um "tipo que não sabia nada das apresentações militares e foi dado, como chalado"... na altura o Tenente Coronel Milreu e que estava presente quando as companhias foram apresentadas, chamou-o ao gabinete e desmobilizou-o por incapacidade operacional...hoje penso que este artista se fez é de maluco, com medo da Guiné...

Embarcamos no Vera Cruz a 28 de Abril de 1965 e chegamos a Luanda a 7 de Maio...

 Depois de dias a navegar  e depois dos tripulantes nos dizerem que tínhamos acabado de ultrapassar a linha do equador, todos tivemos a certeza de que não iríamos para a Guiné, o que foi uma imensa alegria -  logo de seguida foi-nos comunicado que o destino era Angola, o que foi uma boa notícia – o tamanho imenso do território Angolano e a tática em quadrícula que formava a teia da rede dos quartéis portugueses espalhados até aos quatro cantos, oferecia a todos a esperança de se poder escapar pelos “pingos da chuva” e isso deu um ânimo novo e as comemorações não se fizeram esperar, pelo facto de a Guiné ter ficado para trás e se perspectivar a estadia num território com melhor fama na estratégia militar e por isso mesmo com uma melhor chance de sairmos vivos do empreendimento a que nos obrigavam…

A partida no Vera Cruz, um paquete imponente, foi rodeada de centenas de familiares que expressavam sentimentos angustiosos, ouvindo-se choros compulsivos e gritos lancinantes que davam aos jovens apinhados nos mastros uma visão lúgubre, que eles eufóricos na azáfama da partida confundiam com alegria e aventura – a placa identificativa em latão pobre (com o grupo sanguíneo) e que rodeava o pescoço com uma liga de arame e que, caso houvesse acidente fatal, seria entalada no céu da boca, alertavam para o facto de que se poderia não voltar ou voltar, vivo, doente, deficiente ou morto - o futuro a Deus pertence e ninguém se lastimava em demasia - a força da juventude fazia esquecer os receios e alimentava a euforia da aventura, o que ajudava alguns a viverem uma certa fantasia no que à guerra dizia respeito

No Vera Cruz havia de tudo e tudo era novidade para a rapaziada que tinha saído da "província" pela primeira vez -  desde a piscina, dos permanentes espetáculos de variedades até ao contrabando e passando pela cozinha de excelência, tudo ajudava a subir a moral...a viagem decorreu maravilhosamente bem e muitos de nós estavam a fazer a sua grande e primeira viagem...





O Terrível galho...alguns não conseguiam mesmo ultrapassar este terrível obstáculo...um rapazola um dia  a tiritar de medo não conseguia fazer o salto para o galho e o sargento mandou amarrar-lhe uma corda e puxou-o - quando escorregou até ao chão o rapazola estava uma lástima, nem a urina conseguiu aguentar... mesmo assim foi mobilizado...



continua nr. 3