domingo, 25 de agosto de 2013

Batalhão 774, Companhia 771 - (2) ANGOLA

Foto de fim de curso no quartel em Tavira ( segundo a contar da direita de quem olha para a foto)...
Soldados rasos, cabos e depois furriéis milicianos...
A disciplina neste quartel era tão rigorosa que havia um alferes de Ílhavo, que, analisando conterrâneos seus, mal notava um botão desapertado, uma bota mal engraxada, um cabelo fora do sítio, ou mesmo nada a assinalar, só para sacanear os conterrâneos, adiava a saída do quartel... este oficial era um um perfeito "piolhoso" e demonstra que muitos deles, oficiais de Academia Militar, faziam tudo para amesquinhar os Milicianos e a inveja era tanta que existe quem diga que o 25 de Abril foi desencadeado simplesmente por desinteligências quanto ao poder dos Milicianos que em campanha eram os " paus mandados para toda a obra"...normalmente os comandantes eram de Academia e os Milicianos alombavam com os pelotões para fazer o trabalho no terreno...

Depois duma formação militar muito exigente, que implicava desde a alvorada, saídas em passo de corrida, caminhar no pórtico, salto do galho, deitar, rodopiar sobre si mesmo e arranjar maneira de fugir sem cair, rastejar até doerem os cotovelos, não esquecendo a bosta (da feira do dia anterior) que estava por todos os lados, até subir e descer montes várias vezes até a boca saber a sangue, passar por debaixo de arame farpado, saltar paliçadas, atravessar rios tendo como guia uma simples corda, mesmo sem saber nadar, da cambalhota em frente, da chapada com resposta pronta, da defesa do castelo, da carpete humana ou da descida em rebolão, tudo fazia parte da  formação básica - o exercício de descer em rebolão os degraus íngremes da escadaria da capela de Santa Luzia, da montagem e desmontagem de armas, até ao fogo real, dos slides da torre das capelas, saltos de viatura em movimento e muito treino de marcha forçada com botas,  para além do fato de macaco, capacete e arma e muita preparação teórica sobre tudo o que dizia respeito a estratégia e especialização nos ramos a que se destinavam em quartéis destinados à formação militar, tudo era permitido para serem alcançados objetivos mentais e físicos necessários para uma campanha perigosa e demolidora que poderia servir na Guiné Bissau, Angola ou Moçambique...Tavira nessa altura levou ao extremo a formação militar básica e resultou, porque hoje todos reconhecem que o que se pedia era capacidade para enfrentar uma "guerrilha" em África que era muito mal conhecida e o objetivo, apesar da derrota, foi alcançado...

Os mancebos e depois de terminada a recruta, cada um “per si” foram incorporados em vários batalhões, sendo justo realçar terem sido incorporados na Companhia 771 sob o comando do Capitão António Marques (falecido), englobada no Batalhão de Caçadores 774 comandado pelo tenente Coronel Milreu ( falecido)...

Depois de fazermos uma breve passagem por Santa Margarida, onde foram realizados muitos exercícios de consolidação de conhecimentos, fomos preparados para a viagem que ninguém sabia qual era - na altura a Guiné Bissau era o local que todos sabiam ser uma colónia com muito má fama...é interessante recordar que em Santa Margarida o capitão da Companhia não era o Marques, mas um "tipo que não sabia nada das apresentações militares e foi dado, como chalado"... na altura o Tenente Coronel Milreu e que estava presente quando as companhias foram apresentadas, chamou-o ao gabinete e desmobilizou-o por incapacidade operacional...hoje penso que este artista se fez é de maluco, com medo da Guiné...

Embarcamos no Vera Cruz a 28 de Abril de 1965 e chegamos a Luanda a 7 de Maio...

 Depois de dias a navegar  e depois dos tripulantes nos dizerem que tínhamos acabado de ultrapassar a linha do equador, todos tivemos a certeza de que não iríamos para a Guiné, o que foi uma imensa alegria -  logo de seguida foi-nos comunicado que o destino era Angola, o que foi uma boa notícia – o tamanho imenso do território Angolano e a tática em quadrícula que formava a teia da rede dos quartéis portugueses espalhados até aos quatro cantos, oferecia a todos a esperança de se poder escapar pelos “pingos da chuva” e isso deu um ânimo novo e as comemorações não se fizeram esperar, pelo facto de a Guiné ter ficado para trás e se perspectivar a estadia num território com melhor fama na estratégia militar e por isso mesmo com uma melhor chance de sairmos vivos do empreendimento a que nos obrigavam…

A partida no Vera Cruz, um paquete imponente, foi rodeada de centenas de familiares que expressavam sentimentos angustiosos, ouvindo-se choros compulsivos e gritos lancinantes que davam aos jovens apinhados nos mastros uma visão lúgubre, que eles eufóricos na azáfama da partida confundiam com alegria e aventura – a placa identificativa em latão pobre (com o grupo sanguíneo) e que rodeava o pescoço com uma liga de arame e que, caso houvesse acidente fatal, seria entalada no céu da boca, alertavam para o facto de que se poderia não voltar ou voltar, vivo, doente, deficiente ou morto - o futuro a Deus pertence e ninguém se lastimava em demasia - a força da juventude fazia esquecer os receios e alimentava a euforia da aventura, o que ajudava alguns a viverem uma certa fantasia no que à guerra dizia respeito

No Vera Cruz havia de tudo e tudo era novidade para a rapaziada que tinha saído da "província" pela primeira vez -  desde a piscina, dos permanentes espetáculos de variedades até ao contrabando e passando pela cozinha de excelência, tudo ajudava a subir a moral...a viagem decorreu maravilhosamente bem e muitos de nós estavam a fazer a sua grande e primeira viagem...





O Terrível galho...alguns não conseguiam mesmo ultrapassar este terrível obstáculo...um rapazola um dia  a tiritar de medo não conseguia fazer o salto para o galho e o sargento mandou amarrar-lhe uma corda e puxou-o - quando escorregou até ao chão o rapazola estava uma lástima, nem a urina conseguiu aguentar... mesmo assim foi mobilizado...



continua nr. 3

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